Como estragamos Mindfulness

O que pode ser surpreendente é que um desses críticos é o monge budista francês Matthieu Ricard, um dos mais famosos especialistas em Mindfulness. Recentemente, perguntei a Ricard o que ele achava das versões seculares de Mindfulness que estão na moda, como MBSR e a Terapia cognitiva com base em Mindfulness (Mindfulness-Based Cognitive Therapy), que têm sido caracterizadas como “meditações budistas sem o budismo”. Como se trata de uma pessoa que passou quatro décadas no sopé dos Himalaias em meditação de Mindfulness – e tem a reputação de ser o “homem mais feliz do mundo” – eu esperava plenamente que ele seria um grande defensor. A resposta dele me deixou chocado.

“Tem muita gente falando sobre Mindfulness”, disse Ricard, “mas o risco é que ela seja tratada muito literalmente – como só ‘ter atenção plena’. Pois bem, podemos ter um atirador de elite com atenção plena ou um psicopata com atenção plena. É verdade! Um atirador de elite precisa ter muito foco, nunca se distrair, ter muita calma, sempre trazendo a atenção de volta para o momento presente. E sem julgamentos – simplesmente matar pessoas sem fazer julgamentos. Isso pode acontecer”!

Ricard está só parcialmente brincando sobre o atirador de elite. Ele e outros críticos sabem que cursos de Mindfulness tornaram-se populares em treinamentos militares (com atiradores de elite de verdade). Ao mesmo tempo, esses cursos também têm invadido o mundo corporativo, uma “McMindfulness” que ajuda operadores estressados de Wall Street a manterem a calma e o foco no meio da turbulência do mercado e de fechar negócios de alto risco. É possível encontrar frequentemente o fundador do MBSR, Jon Kabat-Zinn, dando aulas matutinas de Mindfulness para os mais importantes CEO’s no encontro anual do Fórum Econômico Mundial de Davos.

O argumento de Ricard é que o movimento secular de Mindfulness normalmente oferece Mindfulness sem valores morais. É uma Mindfulness do eu, eu, eu, que pode fazer bem para você, mas não necessariamente te torna bom. Ele acredita que, em comparação, a antiga tradição budista oferece um arcabouço indispensável que integra conceitos como compaixão, empatia e carinho. Os cursos seculares podem facilmente incluir uma perspectiva mais ampla com base em valores, mas a maioria não consegue fazer isso – estão muito ocupados formatando Mindfulness para nossa era de hiperindividualismo.

Fonte/Texto completo em: http://tibethouse.org.br/como-estragamos-mindfulness/